Interpretar campimetria e OCT exige prática, paciência e uma visão integrada. A melhor conduta nasce da correlação entre dados funcionais e estruturais, da atenção à qualidade dos exames e da observação de tendências ao longo do tempo.
O acompanhamento do glaucoma depende de dois pilares complementares: função e estrutura. O primeiro é o que o paciente enxerga e o segundo se refere a como está o nervo óptico.
A campimetria computadorizada avalia a função visual, especialmente a visão periférica. Enquanto o OCT (tomografia de coerência óptica) mede estruturas como a camada de fibras nervosas e o complexo de células ganglionares.
Juntos, esses exames ajudam a detectar dano precoce, acompanhar progressão e guiar decisões terapêuticas.
Por que ambos os exames são necessários
A campimetria é considerada o padrão-ouro para detectar dano funcional no glaucoma. Já o OCT frequentemente mostra alterações estruturais antes que o campo visual apresente defeitos detectáveis.
Isso significa que alterações no OCT podem preceder mudanças na campimetria por anos, e, por isso, os dois exames devem ser interpretados em conjunto, não isoladamente.
Compreender essa relação evita tanto alarmes desnecessários quanto atrasos no tratamento.
Entendendo o laudo de campimetria ou campo visual
Ao receber um laudo de campo visual, comece pelos índices de confiabilidade. Esses indicadores mostram se o paciente respondeu de forma consistente:
- fixation losses (perdas de fixação);
- false positives ou falsos-positivos (respostas quando não houve estímulo);
- false negatives ou falsos-negativos (não responder a estímulos que deveriam ser vistos).
Índices alterados reduzem a confiança nas conclusões do exame e podem justificar sua repetição. Sempre verifique esses números antes de interpretar defeitos.
Em seguida:
- observe os mapas do exame. O mapa de sensibilidade mostra os pontos testados. O mapa de desvio padrão (pattern deviation) destaca áreas focalmente deprimidas, descontando depressões difusas que podem ser causadas por catarata.
- o Mean Deviation (MD) indica perda global;
- o Pattern Standard Deviation (PSD ou PD) evidencia perda localizada;
- o Visual Field Index (VFI), quando disponível, dá uma visão resumida da função e é útil para acompanhar tendência ao longo do tempo.
Esses parâmetros ajudam a diferenciar perda difusa de perda localizada, que é a informação fundamental para diagnóstico e monitorização.
Avaliar progressão funcional exige olhar para séries de exames. Mudanças pequenas entre um exame e outro podem ser variabilidade do teste. Por isso, procure uma tendência consistente ao longo de vários campos visuais.
Ferramentas de análise de progressão (event- and trend-based analyses) e testes repetidos em intervalos regulares são as melhores formas de detectar evolução real. Em suma, não decida por uma única leitura isolada, mas procure padrões.
Interpretando o OCT no glaucoma
No laudo do OCT, os parâmetros mais relevantes são:
- a espessura da camada de fibras nervosas peripapilar (RNFL);
- as medidas do disco óptico (ONH);
- o complexo de células ganglionares (GCC ou GCIPL) na mácula.
As plataformas frequentemente mostram mapas coloridos que comparam medidas do paciente a uma base normativa, usando verde (normal), amarelo (limiar) e vermelho (abaixo do esperado). Esses sinais gráficos são um bom ponto de partida, mas devem ser analisados junto com a imagem e os valores numéricos.
É importante destacar que alterações na RNFL podem surgir antes de defeitos no campo visual.Estudos mostram que, em muitos pacientes, a perda de fibra nervosa precede a perda funcional mensurável por vários anos.
Por isso, uma diminuição progressiva da RNFL ou do GCC em séries de exame de OCT é um sinal de alerta mesmo sem piora clara na campimetria. Isso reforça a necessidade de integrar estrutura e função no monitoramento.
Ao avaliar progressão por OCT, observe tanto mudanças absolutas na espessura quanto padrões topográficos que conversem com o campo visual.
Uma atrofia em arco superior da RNFL deve corresponder a defeitos arqueados inferiores no campo.
Se houver discrepância entre OCT e campimetria:
- reavalie confiabilidade dos exames;
- presença de outras doenças (como edema macular ou neuropatias);
- fatores de imagem (artefatos, qualidade do exame).
Em resumo, procure correlação topográfica e consistência temporal.
Como integrar campimetria e OCT: a relação estrutura-função.
A correlação entre as alterações estruturais (OCT) e funcionais (campimetria) é o coração do monitoramento do glaucoma.
Nem sempre uma queda na espessura da RNFL se traduz imediatamente em perda visual detectável, e nem toda alteração funcional terá um reflexo claro no OCT.
Por isso, decisões clínicas devem se basear na tendência conjunta:
- progressão em ambos os exames é alta evidência de piora;
- progressão isolada exige investigação cuidadosa.
A integração cuidadosa reduz o risco de tratamentos desnecessários ou de atraso no tratamento. Ferramentas de software que alinham dados de OCT e campimetria facilitam isso, permitindo ver evolução estrutural e funcional lado a lado.
Na prática clínica, a correlação topográfica entre defeitos do campo e achados no RNFL/GCC é a evidência mais útil para confirmar a progressão real. Portanto, combine imagens, números e padrões clínicos ao tomar decisões.
Variabilidade, artefatos e armadilhas comuns.
Tanto campimetria quanto OCT podem apresentar variações arbitrárias.
Na campimetria, fatores que pode interferir nos resultados são:
- fadiga do paciente;
- aprendizagem (o paciente vai se saindo melhor no exame conforme se acostuma com o teste);
- opacidades oculares, como catarata ou cicatrizes na córnea. Ou seja, o problema não está no nervo óptico, mas no caminho da luz até ele.
No OCT, resultados enganadores podem ser gerados por:
- baixa qualidade de imagem;
- desalinhamento do equipamento na hora da captação;
- olho seco;
- erros de segmentação.
Antes de rotular um paciente como “em progressão”, verifique a qualidade dos exames. A regra prática é confirmar alterações importantes com avaliações repetidas e consistentes.
O papel da terapêutica: quando intervir e onde a Laserterapia entra.
Quando a progressão é confirmada, o objetivo é reduzir a pressão intraocular para um alvo que interrompa ou desacelere a perda. As opções vão desde ajustes de medicação até procedimentos cirúrgicos.
Entre as alternativas não farmacológicas, a Trabeculoplastia Seletiva a Laser (TSL) surge como um procedimento indicado em glaucoma de ângulo aberto e hipertensão ocular. Esse procedimento pode reduzir a necessidade de colírios e melhorar o controle pressórico em muitos pacientes.
A TSL é adotada tanto como a primeira alternativa em alguns cenários quanto como opção quando há dificuldade no uso de colírios.
Avaliar progressão por campimetria e OCT orienta o momento de considerar TSL ou outras intervenções.
Recomendações práticas
Mantenha uma rotina de exames periódicos e faça um acompanhamento com seu oftalmologista de confiança.
Exames mais frequentes em casos suspeitos de progressão rápida, maior espaçamento em resultados estáveis.
Sempre confira índices de confiabilidade, qualidade da imagem e procure correlação topográfica entre OCT e campimetria.
Interpretar campimetria e OCT exige prática, paciência e uma visão integrada. A melhor conduta nasce da correlação entre dados funcionais e estruturais, da atenção à qualidade dos exames e da observação de tendências ao longo do tempo.
Quando ambos os exames mostram progressão, a ação terapêutica deve ser considerada com seriedade. Quando discordantes, investigue e repita antes de mudar o tratamento.
Se você quer uma avaliação cuidadosa dos seus exames, agende uma avaliação completa com o Dr. Márcio Tractenberg do Portal Glaucoma.
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