Betabloqueadores

Betabloqueadores no olho, efeito no corpo inteiro: o que o paciente cardíaco precisa saber?

Uma gota de colírio parece coisa pequena. O frasco é minúsculo, a dose é de microlitros e o paciente aplica no olho. A lógica imediata é que o efeito fica restrito ali. 

Só que o olho tem uma via de saída direta para a circulação sanguínea, e os betabloqueadores oculares, uma das classes de colírios mais usadas no tratamento do glaucoma, chegam ao coração em quantidade suficiente para causar efeitos reais em pacientes com doenças cardiovasculares.

Esse é um dos pontos da oftalmologia que o paciente cardíaco mais precisa entender antes de iniciar qualquer tratamento para o glaucoma.

Como os betabloqueadores oculares funcionam?

Os colírios betabloqueadores reduzem a pressão intraocular ao diminuir a produção de humor aquoso pelo corpo ciliar. O timolol é o representante mais utilizado dessa classe, mas existem outros como o levobunolol, o carteolol e o betaxolol, este último com perfil de seletividade diferente dos demais.

O mecanismo é eficaz e a redução de pressão costuma ser significativa, o que explica o uso difundido dessa classe no manejo do glaucoma. O problema aparece quando a molécula vai além do olho.

O caminho do colírio até a corrente sanguínea

Após a aplicação, parte do colírio escoa pelo canal lacrimal em direção à mucosa nasal. 

Nesse ponto, a absorção é direta para a circulação sistêmica, sem passar pelo metabolismo hepático de primeira passagem que normalmente reduz a concentração de medicamentos administrados por via oral.

O resultado é que a biodisponibilidade sistêmica de um betabloqueador ocular pode ser comparável, em alguns pacientes, à de uma dose oral baixa. 

O coração, os pulmões e os vasos sanguíneos ficam expostos a uma medicação que o paciente aplica achando que o efeito é local.

Quem corre mais risco?

Pacientes com determinadas condições cardiovasculares e respiratórias exigem atenção redobrada antes de iniciar um betabloqueador ocular. Os grupos com maior risco de complicações incluem:

  • portadores de bradicardia sinusal ou bloqueio atrioventricular de segundo e terceiro grau;
  • pacientes com insuficiência cardíaca descompensada;
  • pessoas com asma brônquica ou doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) grave;
  • indivíduos em uso de betabloqueadores sistêmicos para hipertensão ou doença coronariana;
  • pacientes em uso de bloqueadores dos canais de cálcio não diidropiridínicos, como verapamil e diltiazem.

A combinação de betabloqueador ocular com betabloqueador sistêmico, uma situação bastante comum em pacientes cardiológicos que desenvolvem glaucoma, pode potencializar efeitos como queda da frequência cardíaca e redução da pressão arterial.

Sintomas que o paciente precisa reconhecer

Os efeitos sistêmicos dos betabloqueadores oculares costumam aparecer de forma gradual e podem ser confundidos com a progressão natural da doença cardíaca. Os sinais mais frequentes são:

  • cansaço desproporcional ao esforço;
  • palpitações ou sensação de coração lento;
  • falta de ar, especialmente em pacientes com histórico respiratório;
  • tontura ou hipotensão ao levantar;
  • intolerância ao exercício físico que o paciente não apresentava antes.

Quando esses sintomas aparecem após o início de um colírio para glaucoma, a comunicação imediata com o oftalmologista e com o cardiologista é fundamental.

O que o cardiologista precisa saber sobre o tratamento do glaucoma?

Pacientes cardíacos frequentemente consultam o cardiologista sem mencionar os colírios oculares, por não associarem os dois tratamentos. E cardiologistas, ao revisar a lista de medicamentos, raramente perguntam sobre colírios.

Essa lacuna de comunicação pode levar a ajustes desnecessários nos medicamentos cardiovasculares ou a uma atribuição incorreta dos sintomas. O ideal é que o paciente leve a lista completa de colírios em uso para toda consulta, seja ela com o oftalmologista, o cardiologista ou o clínico geral.

Alternativas ao betabloqueador ocular em pacientes cardíacos

A boa notícia é que existem alternativas eficazes para pacientes que não toleram betabloqueadores oculares. 

O oftalmologista pode optar por outras classes de colírios hipotensores, como análogos de prostaglandinas, inibidores da anidrase carbônica tópicos ou agonistas alfa-2 adrenérgicos, dependendo do perfil clínico do paciente.

Trabeculoplastia seletiva a laser como alternativa ao colírio

Para pacientes com glaucoma de ângulo aberto que precisam reduzir ou eliminar o uso de colírios, incluindo aqueles que não toleram betabloqueadores por razões cardíacas, a trabeculoplastia seletiva a laser (SLT) é uma alternativa clinicamente relevante. 

O procedimento age sobre a malha trabecular para melhorar a drenagem do humor aquoso sem introduzir nenhuma substância na circulação sistêmica.

Em pacientes cardíacos com glaucoma, a SLT pode permitir a redução do número de colírios em uso, diminuindo a carga de medicamentos com potencial efeito cardiovascular. 

A decisão depende do estágio do glaucoma, da resposta ao tratamento atual e da avaliação conjunta entre o oftalmologista e o cardiologista.

Como reduzir a absorção sistêmica do colírio?

Para pacientes que precisam usar betabloqueadores oculares e convivem com fatores de risco cardiovascular, oclusão punctal é uma técnica simples que reduz a absorção sistêmica.

O procedimento consiste em pressionar suavemente o canto interno do olho com o dedo indicador logo após a aplicação do colírio, mantendo a pressão por dois minutos. Esse gesto interrompe o fluxo da medicação pelo canal lacrimal e pode reduzir a absorção sistêmica em até 70%.

A técnica é subutilizada por falta de orientação. Perguntar ao oftalmologista sobre ela na próxima consulta pode fazer diferença real no perfil de segurança do tratamento.

A decisão precisa ser compartilhada

O manejo do glaucoma em pacientes cardíacos exige diálogo entre especialidades. A escolha do colírio, a dose, a possibilidade de substituir a medicação por procedimentos a laser e o monitoramento dos efeitos sistêmicos são decisões que envolvem o oftalmologista e o cardiologista trabalhando com as mesmas informações.

Pacientes que sabem fazer as perguntas certas conseguem participar ativamente dessas decisões e reduzem o risco de complicações desnecessárias.

Agende sua consulta com o Dr. Márcio Tractenberg

Se você tem doença cardiovascular e glaucoma, ou se usa betabloqueador ocular e sente sintomas que não consegue explicar, uma avaliação especializada pode ser o que falta para ajustar o seu tratamento com segurança. 

O Dr. Márcio Tractenberg, do Portal Glaucoma, avalia cada paciente considerando o quadro clínico completo para indicar a conduta mais adequada.

Agende sua consulta e tenha um tratamento do glaucoma alinhado com a sua saúde como um todo.

Dr. Márcio Tractenberg

Oftalmologista Porto Alegre

Consultório Instituto de Olhos Bela Vista – Av Carlos Gomes 1340 Sala 1003/1

Porto Alegre / RS 90480-001

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