A notícia de uma gravidez traz alegria para todos. Mas, para quem vive com glaucoma, surgem também muitas perguntas.
Como equilibrar a saúde ocular da mãe e a segurança do feto? Quais tratamentos são aceitáveis e quais devemos evitar?
Este post explica as opções terapêuticas, riscos mais relevantes do glaucoma na gravidez e como montar um plano seguro durante a gestação.
O que muda no olho durante a gravidez
Durante a gravidez ocorrem várias alterações hormonais e hemodinâmicas que afetam o olho.
Em muitas mulheres, a pressão intraocular (PIO) tende a diminuir espontaneamente, especialmente no segundo e terceiro trimestres. Embora essa tendência favoreça muitas pacientes, não existe uma garantia de que ela vá se cumprir.
Alguns casos avançados ou instáveis continuam a exigir tratamento. Sendo assim, o acompanhamento de perto continua sendo necessário pois a melhora é imprevisível.
Avaliação inicial e planejamento pré-concepcional
Quando uma paciente com glaucoma planeja gravidez, o ideal é uma consulta antes da concepção para revisar o controle da doença e considerar mudanças que facilitem o período gestacional.
Revisar exames, documentar o nível de dano ao nervo óptico e discutir alternativas ao uso contínuo de colírios é o primeiro passo.
Planejar permite reduzir riscos e escolher estratégias que protejam a visão e o feto.
Medicações: o que costuma ser preferido e o que preocupa
Os colírios são a base do tratamento do glaucoma, mas na gravidez devemos pesar benefício e risco. Algumas orientações gerais:
Betabloqueadores tópicos
Betabloqueadores tópicos, como o timolol, atravessam a barreira placentária e podem causar efeitos colaterais no feto, como bradicardia.
Mesmo assim, estudos e revisões sugerem que o uso tópico, com medidas para reduzir absorção sistêmica, pode ser empregado quando necessário.
A decisão deve ser individualizada. Faça uso com cautela e sempre utilizando técnicas de aplicação que minimizem a absorção sistêmica.
Brimonidina
Muitas diretrizes indicam que, embora seja uma opção em alguns momentos da gestação, é perigosa perto do parto e durante a amamentação pelo risco de depressão do sistema nervoso central no recém-nascido.
Portanto, pode ser considerada no primeiro trimestre, mas deve ser evitada nas últimas semanas e durante a lactação.
Inibidores da anidrase carbônica (CAIs)
As formas tópicas, como dorzolamida e brinzolamida, têm menos absorção sistêmica e podem ser alternativas.
Os remédios orais, como acetazolamida, costumam ser evitados, especialmente no primeiro trimestre, por relatos que geram cautela. A avaliação do risco benefício é crítica.
Prostaglandinas
As prostaglandinas, como latanoprosta, geralmente são evitadas na gestação por falta de segurança comprovada e por potencial teórico de efeito uterotônico. Elas, são, portanto, uma opção menos preferível durante a gravidez.
Além da escolha do colírio, existem estratégias práticas para reduzir a exposição sistêmica:
- usar a menor dose eficaz;
- fazer oclusão do ponto lacrimal por 1 a 2 minutos após a gota;
- aplicar a técnica de pálpebra fechada.
Essas medidas diminuem a absorção e aumentam a segurança.
Como fazer a técnica da pálpebra fechada
Após pingar uma gota do colírio no olho:
- Feche suavemente os olhos, sem apertar;
- Mantenha os olhos fechados por 1 a 2 minutos;
- Evite piscar ou espremer as pálpebras durante esse tempo.
Pronto. Só isso.
Por que essa técnica é importante?
Quando piscamos ou apertamos os olhos logo após pingar o colírio, parte do medicamento escorre para o canal lacrimal, aquele caninho que drena a lágrima para o nariz.
Dali, o remédio pode ser absorvido pelo organismo e aumentar o risco de efeitos sistêmicos.
Ao manter a pálpebra fechada:
- mais medicamento fica agindo no olho;
- menos medicamento vai para o resto do corpo;
- o tratamento fica mais seguro, especialmente para gestantes.
Quando optar por tratamentos não-medicamentoso: laser como protagonista
A Trabeculoplastia Seletiva a Laser (TSL) ganha destaque como alternativa durante a gravidez. É um procedimento ambulatorial, rápido, que reduz a necessidade de colírios e não envolve anestesia sistêmica significativa.
Por isso, muitos especialistas a consideram uma opção atraente e segura para controlar a PIO em gestantes que precisam diminuir rapidamente a terapia tópica.
A TSL pode permitir uma pausa no uso de medicações ou reduzir a quantidade, tornando-se uma solução prática enquanto a paciente está grávida.
Quando indicado, a trabeculoplastia seletiva a laser é frequentemente a melhor alternativa para minimizar exposição medicamentosa.
O ideal seria a paciente passar por uma avaliação oftalmológica e detectar o glaucoma antes de engravidar, Nesse caso, a Trabeculoplastia Seletiva a Laser poderia ser planejada com calma e feita antes que a gestação inicie.
Dessa forma, o feto seria poupado de boa parte dos efeitos dos medicamentos e a mãe teria uma gravidez mais tranquila.
Amamentação e cuidados no puerpério
Algumas medicações atravessam o leite materno e podem afetar o recém-nascido. Outras, como a brimonidina, são claramente problemáticas durante a amamentação por risco de depressão respiratória ou neuro-comportamental no bebê.
Em muitos casos, é viável ajustar a medicação no pós-parto ou orientar a mãe a suspender temporariamente o aleitamento em horários de pico de medicação, sempre com acompanhamento médico.
Portanto, a amamentação exige nova revisão do plano terapêutico para equilíbrio entre segurança do bebê e proteção da visão da mãe.
Monitoramento: mais frequente e documentado
Gestantes com glaucoma precisam de monitoramento mais próximo:
- consultas mais frequentes;
- documentação por fotografia do nervo óptico;
- campimetria quando possível.
A PIO pode flutuar e não dá para confiar em consultas espaçadas, pois o risco é atrasar uma intervenção necessária.
Manter registros e agir rapidamente diante de piora protege a visão sem expor desnecessariamente o feto.
Comunicação com obstetra e abordagem multidisciplinar
O manejo ideal do glaucoma na gravidez é multidisciplinar. Oftalmologista, obstetra e, quando necessário, anestesista e pediatra, devem conversar sobre riscos, tempo de intervenção e acompanhamento.
Essa parceria reduz incertezas e melhora decisões como trocar um colírio, indicar laser ou programar cirurgia.
Riscos reais e mitos o que o paciente deve saber
Muitos mitos cercam o uso de colírios na gestação. É importante separar preocupações legítimas de alarmes excessivos:
- nem todo colírio causa malformação;
- muitas opções tópicas, usadas com técnica adequada, são razoavelmente seguras quando estritamente necessárias.
Por outro lado, existem riscos concretos, como bradicardia fetal com betabloqueadores e depressão neonatal com brimonidina. Essas situações exigem cautela e cuidado.
O Dr. Márcio Tractenberg aconselha que a paciente esclareça suas dúvidas com o oftalmologista, não pare a medicação sem orientação e peça alternativas quando houver preocupação.
Passo a passo prático para gestantes com glaucoma
- se estiver planejando gravidez, marque uma consulta pré-concepção para revisar o controle atual e discutir as alternativas com seu oftalmologista;
- durante a gravidez, realize acompanhamento oftalmológico mais frequente e discuta redução de medicamentos quando possível;
- considere Trabeculoplastia Seletiva a Laser (TSL) como alternativa para diminuir a necessidade de colírios;
- evite decisões isoladas e mantenha comunicação com seu obstetra e equipe de saúde.
Seguir um plano claro e personalizado é o caminho mais seguro tanto para a mãe quanto para o bebê.
Se você é gestante ou planeja engravidar, agende uma horário para conversar com o Dr. Márcio Tractenberg do Portal Glaucoma. Para garantir a segurança do bebê, é preciso avaliar seu caso de glaucoma, revisar medicações e montar o melhor plano para proteger sua visão durante a gravidez.
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