Quem fez LASIK, PRK ou SMILE para largar os óculos raramente sai do consultório com uma explicação sobre a cirurgia refrativa alterar a córnea.
No entanto, a córnea é justamente a estrutura usada para medir a pressão intraocular. Isso significa que, a partir da cirurgia a laser nos olhos, o número que aparece na tonometria de rotina passa a exigir interpretação.
Para quem tem glaucoma, suspeita de glaucoma ou histórico familiar da doença, esse detalhe determina se o diagnóstico será feito a tempo.
Como a pressão intraocular é medida?
O método padrão é a tonometria de aplanação de Goldmann. Um pequeno cone toca a córnea anestesiada e mede a força necessária para achatar uma área específica. Essa força tem relação direta com a pressão dentro do olho.
O cálculo por trás do aparelho assume uma córnea com características médias, especialmente uma espessura central em torno de 520 a 545 micrômetros e uma determinada rigidez.
Quando a córnea real foge desse padrão, o valor exibido se afasta do valor verdadeiro.
O que a cirurgia refrativa muda
Para corrigir miopia, o laser remove tecido do centro da córnea. Quanto maior o grau tratado, maior a quantidade retirada. Uma correção de seis dioptrias, por exemplo, pode consumir cerca de 80 micrômetros de espessura central.
Duas consequências aparecem:
- a córnea fica mais fina e o tonômetro precisa de menos força para achatá-la;
- a estrutura perde rigidez, o que também reduz a resistência ao aplanamento.
O resultado é uma leitura mais baixa que a pressão real, com diferenças que variam de 2 a 6 mmHg conforme o grau tratado e a técnica utilizada.
Um olho que marca 15 mmHg após a cirurgia pode estar, na prática, com 20 mmHg. Em correções de hipermetropia, o laser atua na periferia da córnea e preserva mais o centro, com impacto menor sobre a medida, embora ele exista.
Por que isso importa tanto no glaucoma?
O glaucoma evolui em silêncio, e a pressão intraocular é o principal fator de risco modificável. Uma subestimação sistemática produz dois efeitos ruins.
No paciente ainda sem diagnóstico, a pressão real elevada aparece como normal, o exame de rotina não gera nenhum alerta, e a doença avança até que o campo visual mostre perdas.
No paciente já em tratamento, a medida falsamente baixa sugere que a meta pressórica foi atingida, enquanto o nervo óptico continua sofrendo.
Vale acrescentar um dado da própria triagem pré-operatória. Parte dos candidatos à cirurgia refrativa tem miopia alta, e esta é fator de risco independente para glaucoma. Ou seja, o grupo que mais faz cirurgia refrativa é também aquele com risco aumentado.
Como obter uma leitura confiável depois da cirurgia a laser nos olhos?
Guarde os exames pré-operatórios
Esse é o item mais valioso. A paquimetria e as medidas de pressão intraocular feitas antes da cirurgia funcionam como linha de base.
Peça esses documentos ao serviço onde você operou e leve nas consultas oftalmológicas. Com eles, o médico estima com muito mais precisão a pressão real atual.
Faça paquimetria atualizada
Conhecer a espessura corneana atual permite aplicar fatores de correção e interpretar cada medida com o contexto certo.
Considere métodos menos dependentes da córnea
Alguns equipamentos contornam parte do problema:
- tonometria de contorno dinâmico de Pascal, pouco influenciada pela espessura corneana;
- analisador de resposta ocular, que mede a histerese corneana e fornece uma pressão compensada;
- tonômetro de não contato com análise biomecânica, que avalia a deformação da córnea em alta velocidade.
Acompanhe o nervo óptico, e não apenas o número.
A tomografia de coerência óptica quantifica a camada de fibras nervosas da retina e a região macular, e o campo visual avalia a função.
Esses exames independem da córnea e mostram dano estrutural ou funcional mesmo quando a tonometria engana. Em olhos operados, eles ganham peso ainda maior na decisão clínica.
Um risco extra logo após a cirurgia
O pós-operatório da cirurgia refrativa envolve colírios com corticoide por algumas semanas.
Cerca de um terço da população responde a corticoide com elevação da pressão intraocular, e esse aumento pode passar despercebido justamente porque a córnea recém operada devolve leituras baixas.
No LASIK, existe ainda uma complicação específica, a síndrome do fluido na interface, em que líquido se acumula sob o flap e mascara completamente a pressão elevada.
Por isso, qualquer visão embaçada, halos ou desconforto durante o pós-operatório merece avaliação imediata.
Tratamento de glaucoma em olho operado
O manejo segue os mesmos princípios, com atenção redobrada à meta pressórica, que costuma ser definida em valores mais baixos para compensar a subestimação.
A trabeculoplastia seletiva a laser é uma opção bem estabelecida nesses pacientes. O procedimento atua na malha trabecular, dentro do ângulo de drenagem, uma região totalmente preservada pela cirurgia refrativa.
Ele reduz a pressão intraocular de forma contínua, dispensa cortes, é feito em consultório em poucos minutos e ajuda a diminuir a quantidade de colírios diários, o que interessa especialmente a quem já convive com olho seco após LASIK ou PRK.
Ter feito cirurgia refrativa continua sendo uma boa decisão para muita gente. O ponto é incluir esse dado permanentemente na sua história clínica e manter o acompanhamento com exames que enxergam além do número da tonometria.
Se você fez cirurgia a laser nos olhos, marque uma consulta com o Dr. Márcio Tractenberg, do Portal Glaucoma. A avaliação com paquimetria, análise do nervo óptico e interpretação correta da pressão intraocular em córneas operadas garante um diagnóstico preciso e o tratamento adequado.
Oftalmologista Porto Alegre
Consultório Instituto de Olhos Bela Vista – Av Carlos Gomes 1340 Sala 1003/1
Porto Alegre / RS 90480-001