O glaucoma costuma ser descrito como uma doença silenciosa, que avança sem dor e sem aviso. Isso vale para a forma mais comum, o glaucoma de ângulo aberto.
Existe, porém, um tipo que aparece de repente, com dor intensa, visão embaçada e enjoo, e pode levar à perda definitiva da visão em questão de horas. É a crise aguda do glaucoma de ângulo fechado, uma das poucas urgências reais da oftalmologia.
Entender como ela acontece, quem tem mais risco e o que fazer nos primeiros sinais pode ser a diferença entre preservar e perder a visão de um olho.
O que é o ângulo do olho?
Dentro do olho circula um líquido chamado humor aquoso. Ele é produzido atrás da íris, passa pela pupila e é drenado por uma estrutura em forma de peneira, a malha trabecular, localizada no encontro entre a íris e a córnea.
Esse ponto de encontro é chamado de ângulo da câmara anterior, ou simplesmente ângulo do olho. Quando ele está aberto, o líquido flui e a pressão intraocular se mantém estável. Quando se fecha, a drenagem é bloqueada, o humor aquoso continua sendo produzido e a pressão dispara.
Como a crise aguda acontece?
Em algumas pessoas, a íris fica muito próxima da malha trabecular por causa da própria anatomia do olho.
Quando a pupila dilata, a íris se dobra e encosta na malha, tampando a saída do líquido de uma vez. Esse bloqueio súbito é o que caracteriza a crise aguda de fechamento angular.
A pressão intraocular, que em condições normais fica entre 10 e 21 mmHg, pode ultrapassar 50 ou 60 mmHg em poucas horas.
O nervo óptico, responsável por levar a informação visual até o cérebro, sofre com essa compressão e pode ser danificado de forma permanente.
Alguns gatilhos comuns para o fechamento do ângulo:
- ambientes com pouca luz, que dilatam a pupila;
- colírios de dilatação usados em exames;
- medicamentos com efeito anticolinérgico ou adrenérgico, como alguns antialérgicos, antidepressivos e descongestionantes;
- situações de estresse emocional intenso.
Sintomas da crise aguda
A crise costuma ser dramática e difícil de ignorar. Os sinais mais frequentes do glaucoma de ângulo fechado incluem:
- dor ocular forte, muitas vezes descrita como a pior dor de olho que a pessoa já sentiu;
- dor de cabeça do mesmo lado;
- visão embaçada de instalação rápida;
- halos coloridos ao redor das luzes;
- olho vermelho;
- náusea e vômito;
- pupila dilatada e sem resposta à luz.
O enjoo e a dor de cabeça fazem com que muitos pacientes procurem um pronto-socorro geral achando que o problema é gastrointestinal ou uma enxaqueca.
Reconhecer que os sintomas vêm acompanhados de dor no olho e de perda visual é o que direciona o atendimento correto.
Por que cada hora conta?
A gravidade da crise de glaucoma de ângulo fechado está no tempo de exposição do nervo óptico à pressão elevada.
Quanto mais horas o olho permanece com a pressão em níveis extremos, maior o dano às fibras nervosas e menor a chance de recuperação. Em situações de demora prolongada, a perda de visão pode ser total e irreversível.
Além do nervo óptico, a pressão alta compromete a córnea, que fica edemaciada e opaca, e pode provocar aderências permanentes entre a íris e a malha trabecular, chamadas de sinéquias. Quando elas se formam, o ângulo permanece fechado mesmo depois de a crise ser controlada, e o tratamento se torna mais complexo.
Como a crise é tratada?
O atendimento de emergência tem dois objetivos, por um lado baixar a pressão rapidamente e, por outro, desfazer o bloqueio na pupila.
Controle imediato da pressão
O oftalmologista utiliza uma combinação de medicamentos por via oral, venosa e tópica para reduzir a produção do humor aquoso e diminuir a pressão em poucas horas.
Depois que a pressão começa a cair, colírios que contraem a pupila ajudam a afastar a íris da malha trabecular e reabrir o ângulo.
Iridotomia a laser
Quando a córnea recupera a transparência, é feita a iridotomia periférica a laser. O procedimento cria um pequeno orifício na íris, permitindo que o humor aquoso passe diretamente para a câmara anterior sem depender da pupila.
Isso elimina o mecanismo de bloqueio e previne novas crises.
Como a anatomia costuma ser semelhante nos dois olhos, a iridotomia é realizada também no olho que ainda está saudável, como medida preventiva.
Quem tem mais risco?
O fechamento angular tem uma base anatômica bem definida. Os fatores de risco mais relevantes são:
- hipermetropia, que está associada a olhos menores e câmara anterior mais rasa;
- idade acima de 50 anos, porque o cristalino cresce e empurra a íris para frente;
- sexo feminino;
- ascendência asiática;
- histórico familiar de glaucoma de ângulo fechado;
- catarata em estágio avançado.
Pessoas com esses fatores se beneficiam de uma avaliação do ângulo com gonioscopia, um exame simples feito no consultório.
Quando o ângulo é identificado como estreito antes de qualquer crise, a iridotomia preventiva pode ser indicada, evitando o quadro agudo por completo.
E depois da crise, o glaucoma de ângulo fechado está resolvido?
A iridotomia trata o mecanismo de bloqueio, mas parte dos pacientes segue com a pressão elevada, seja porque houve dano permanente à malha trabecular, seja porque se formaram sinéquias durante a crise.
Nesses casos, o acompanhamento continua com colírios e, em algumas situações, com outros procedimentos.
Para pacientes em que o ângulo se abre de forma satisfatória após a iridotomia, a trabeculoplastia seletiva a laser pode ser considerada como opção para melhorar a drenagem pela malha trabecular e reduzir a dependência de colírios.
A indicação depende da avaliação do ângulo em gonioscopia, feita caso a caso.
O que fazer se você suspeitar de uma crise?
Dor intensa no olho, visão embaçada súbita, halos ao redor das luzes e enjoo formam uma combinação que exige atendimento oftalmológico no mesmo dia.
Procurar um serviço de emergência com oftalmologista disponível, evitar ambientes escuros até ser avaliado e informar todos os medicamentos em uso são as atitudes que mais ajudam nesse momento.
Avalie o seu risco antes que a crise aconteça
A crise aguda de fechamento angular é uma emergência que pode ser prevenida. Um exame de gonioscopia identifica se o ângulo do seu olho é estreito e permite agir antes de qualquer sintoma.
Se você tem hipermetropia, mais de 50 anos ou histórico familiar de glaucoma de ângulo fechado, agende uma consulta com o Dr. Márcio Tractenberg, do Portal Glaucoma, e faça uma avaliação completa do seu ângulo e da sua pressão intraocular.
Oftalmologista Porto Alegre
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