Miopia aumenta o risco de glaucoma? A miopia costuma ser tratada como um problema resolvido com óculos ou lentes de contato. A pessoa enxerga mal de longe, faz o exame de grau, ajusta as lentes e segue a vida.

Só que o olho míope tem características anatômicas que vão além da necessidade de correção visual. Alguns estudos populacionais mostram que miopia aumenta o risco de glaucoma de ângulo aberto, o tipo mais comum da doença.
Neste post, você vai entender por que isso acontece, quem precisa de mais atenção e como funciona o acompanhamento.
Miopia aumenta o risco de glaucoma? O que a ciência mostra
Grandes revisões de estudos, que reuniram dados de dezenas de milhares de pessoas, apontam que quem tem miopia apresenta cerca de duas vezes mais chance de desenvolver glaucoma de ângulo aberto em comparação com quem não tem.
Esse risco cresce conforme o grau aumenta. Na miopia alta, geralmente acima de 6 graus, a chance pode chegar a quase três vezes.
Vale entender a nuance. Ter miopia representa um fator de risco, e isso significa probabilidade maior. A maioria dos míopes vai passar a vida sem glaucoma. Ainda assim, essa informação muda a forma como o oftalmologista acompanha o paciente.
Para quem quiser se aprofundar, a Academia Americana de Oftalmologia (AAO) tem um material sobre miopia (em inglês).
Por que o olho míope é mais vulnerável?
O olho é mais alongado
Na maioria dos casos, a miopia acontece porque o globo ocular é mais comprido do que o normal. Esse alongamento estica as estruturas internas do olho, incluindo a esclera, que é a parede branca externa, e a região onde o nervo óptico sai do olho.
O nervo óptico fica mais exposto
O nervo óptico atravessa uma estrutura em forma de peneira chamada lâmina crivosa. No olho míope, essa lâmina tende a ser mais fina e mais deformável.
Com isso, o nervo sofre mais com a pressão intraocular, mesmo quando ela está dentro da faixa considerada normal.
O disco óptico tem formato diferente
Em míopes, o disco óptico costuma aparecer inclinado ou com alterações ao redor, chamadas de atrofia peripapilar.
Essas características dificultam a avaliação do nervo, tanto no exame de fundo de olho quanto em exames de imagem como a tomografia de coerência óptica, a OCT.
Algumas alterações típicas da miopia podem imitar sinais de glaucoma, e o contrário também acontece.
Míopes e o glaucoma de pressão normal
Um ponto que merece destaque: pessoas com miopia aparecem com frequência entre os casos de glaucoma de pressão normal. Nesse tipo, o nervo óptico sofre dano mesmo com a pressão ocular abaixo de 21 mmHg.
Isso explica por que medir a pressão, isoladamente, oferece uma visão incompleta. Em um míope, uma pressão de 17 ou 18 mmHg pode ser suficiente para causar lesão ao longo dos anos. Por isso, a avaliação precisa incluir o nervo óptico e o campo visual.
E a hipermetropia?
A relação se inverte em parte quando o assunto é o glaucoma de ângulo fechado. Olhos hipermétropes, que costumam ser menores, têm um espaço mais estreito entre a íris e a córnea.
Isso aumenta o risco de fechamento do ângulo de drenagem. Já o míope tem, em geral, um ângulo amplo, e o risco dele fica concentrado no glaucoma de ângulo aberto.
Quem tem miopia precisa fazer quais exames?
O acompanhamento ideal combina alguns exames que, juntos, dão um retrato confiável da saúde do nervo óptico:
- tonometria, que mede a pressão intraocular;
- paquimetria, que mede a espessura da córnea e ajuda a interpretar a pressão;
- mapeamento de retina e avaliação do disco óptico;
- tomografia de coerência óptica, a OCT, que mede a camada de fibras nervosas;
- campimetria, que avalia o campo visual;
- gonioscopia, que examina o ângulo de drenagem do olho.
A frequência depende do grau da miopia, da idade, do histórico familiar e dos resultados anteriores. Míopes altos, pessoas com parentes de primeiro grau com glaucoma e quem tem mais de 40 anos se beneficiam de consultas regulares, normalmente anuais.
A importância de ter um exame de base
Como o olho míope tem um nervo de aparência atípica, ter exames de referência ajuda muito.
Comparando uma OCT de hoje com outra feita dois anos atrás, o especialista consegue perceber se houve perda real de fibras ou se aquela aparência sempre foi característica daquele olho.
Cirurgia refrativa e glaucoma
Quem fez cirurgia para corrigir a miopia, como LASIK ou PRK, continua com o olho alongado. A cirurgia muda a curvatura da córnea, e o formato do globo ocular permanece o mesmo. Ou seja, a cirurgia não muda o fato de que a miopia aumenta o risco de glaucoma.
Há um detalhe extra: essas cirurgias afinam a córnea, o que faz a pressão parecer mais baixa nos aparelhos de medição.
Por isso, é importante informar ao oftalmologista que você fez cirurgia refrativa, para que ele interprete os números corretamente.
Como o glaucoma é tratado em pacientes míopes?
O objetivo do tratamento é o mesmo para qualquer paciente: baixar a pressão intraocular até um nível que proteja o nervo óptico. Esse nível, chamado de pressão-alvo, costuma ser mais baixo em míopes, justamente pela fragilidade do nervo.
As opções incluem colírios hipotensores, que são o tratamento mais conhecido, e procedimentos a laser. A trabeculoplastia seletiva a laser, conhecida como SLT, atua na malha trabecular, a estrutura responsável pela drenagem do líquido do olho, e melhora o escoamento.
É um procedimento rápido, feito em consultório, que pode ser usado como primeira opção de tratamento ou em conjunto com os colírios. Nos casos mais avançados, existem ainda as cirurgias filtrantes e os implantes de drenagem.
Sinais de alerta
O glaucoma de ângulo aberto avança sem sintomas na maior parte do tempo. A perda começa pela visão periférica, e o cérebro compensa as falhas, o que faz a pessoa demorar a perceber. Quando a dificuldade de enxergar fica evidente, boa parte do nervo já foi comprometida.
Para o míope, a regra prática é simples: a consulta para trocar o grau dos óculos é uma boa oportunidade para pedir também a avaliação do nervo óptico e da pressão ocular.
Leia também: Fiz cirurgia a laser nos olhos: a medida da pressão ainda é confiável?
Agende sua avaliação
Como a miopia aumenta o risco de glaucoma, se você tem miopia, principalmente acima de 6 graus, ou tem casos de glaucoma na família, o acompanhamento especializado faz toda a diferença para preservar a visão.
Agende uma consulta com o Dr. Márcio Tractenberg, do Portal Glaucoma, e faça uma avaliação completa do seu nervo óptico.