A trabeculoplastia seletiva a laser, conhecida pela sigla SLT, consolidou-se como uma das principais opções de tratamento do glaucoma de ângulo aberto.
O procedimento é rápido, feito em consultório, e reduz a pressão intraocular de forma comparável aos colírios mais usados. Mas o que acontece quando o efeito começa a diminuir?
De uma maneira geral, podemos repetir a SLT. A resposta completa envolve entender como o laser age e o que os estudos mostram sobre a segunda aplicação.
Como a SLT reduz a pressão?
O humor aquoso sai do olho pela malha trabecular, um tecido poroso localizado no ângulo entre a íris e a córnea. No glaucoma de ângulo aberto, essa malha drena menos do que deveria, e a pressão sobe.
A SLT utiliza pulsos de laser de duração extremamente curta, medidos em bilionésimos de segundo, direcionados às células pigmentadas da malha trabecular. A energia é absorvida seletivamente pela melanina, o que estimula uma resposta biológica local.
As células do sistema imune são recrutadas, a matriz extracelular é remodelada e a drenagem melhora. As células vizinhas sem pigmento e a estrutura da malha permanecem intactas.
Essa seletividade é o ponto central para a repetição da SLT. Como o tecido é preservado, existe substrato para uma nova aplicação no futuro.
Por que o efeito diminui com o tempo?
A resposta biológica provocada pelo laser tem duração limitada. Com o passar dos anos, a malha trabecular tende a retornar gradualmente ao estado anterior, e a pressão volta a subir.
Os estudos mostram que a redução de pressão se mantém em uma parcela significativa dos pacientes por um a cinco anos, com variação individual grande.
Fatores que influenciam a duração do efeito incluem:
- pressão intraocular inicial, com respostas maiores em pressões mais altas;
- grau de pigmentação da malha trabecular;
- extensão da aplicação, com 360 graus apresentando resultados mais consistentes do que 180 graus;
- tipo de glaucoma, com boa resposta no pseudoesfoliativo e no pigmentar;
- uso prévio de colírios.
A perda gradual do efeito faz parte do comportamento esperado do procedimento e sinaliza a necessidade de reavaliar o tratamento, seja com nova SLT, seja com outra abordagem.
O que muda em relação ao laser antigo?
Antes da SLT existia a trabeculoplastia com laser de argônio, a ALT. Esse laser produzia queimaduras térmicas na malha trabecular, com formação de cicatrizes.
Repetir a ALT era pouco recomendado, porque a segunda aplicação atingia um tecido já danificado, com resultados inferiores e maior risco de picos de pressão.
A SLT foi desenvolvida justamente para superar essa limitação. Sem dano térmico, a malha trabecular mantém a arquitetura, e a segunda aplicação encontra condições semelhantes às da primeira.
O que os estudos mostram sobre repetir a SLT
Diversas séries publicadas nas últimas duas décadas avaliaram pacientes submetidos a uma segunda SLT após a perda de efeito da primeira. Os achados são consistentes:
- a redução de pressão após a segunda SLT é semelhante à obtida na primeira;
- a duração do efeito da repetição é comparável à da aplicação inicial;
- o perfil de segurança se mantém, com inflamação leve e transitória como principal ocorrência;
- pacientes que responderam bem à primeira aplicação tendem a responder bem à segunda.
O ensaio clínico LiGHT, publicado no Reino Unido e considerado a principal referência sobre a trabeculoplastia seletiva a laser como tratamento inicial, incluiu a repetição da SLT no protocolo.
Os pacientes que perderam o efeito da primeira SLT receberam uma segunda aplicação, e a análise específica desse subgrupo mostrou que a repetição foi eficaz e segura, com taxa de sucesso semelhante ou superior à da primeira sessão.
Quantas vezes é possível repetir a SLT?
Os dados disponíveis são mais robustos para a segunda aplicação. Existem relatos de terceira e quarta SLT com bons resultados, mas em número menor de pacientes.
A decisão de repetir várias vezes leva em conta a resposta a cada sessão, o estágio do glaucoma e as alternativas disponíveis.
Quando a repetição da SLT é indicada?
A segunda SLT costuma ser considerada quando:
- a primeira aplicação reduziu a pressão de forma significativa e o efeito diminuiu ao longo do tempo;
- a pressão voltou a subir acima da meta definida para o paciente;
- o ângulo permanece aberto e bem visualizado na gonioscopia;
- o paciente prefere adiar ou evitar o acréscimo de colírios.
Pacientes que tiveram resposta fraca ou ausente à primeira SLT são candidatos menos prováveis à repetição, porque a segunda tende a reproduzir o padrão da primeira. Nesses casos, outras opções são avaliadas.
Como é a repetição da SLT na prática?
O procedimento é idêntico ao inicial. Após um colírio anestésico e um colírio para prevenir picos de pressão, uma goniolente é posicionada sobre o olho e o laser é aplicado na malha trabecular, geralmente em 360 graus.
A sessão dura poucos minutos e o paciente retorna às atividades normais no mesmo dia.
O acompanhamento inclui medição da pressão nas primeiras horas ou dias e uma reavaliação após algumas semanas, quando o efeito se estabelece.
Colírios anti-inflamatórios podem ser prescritos por um curto período, conforme a avaliação do médico.
A SLT como tratamento de longo prazo
Pensar na SLT como uma sequência de aplicações ao longo dos anos, e em vez de uma intervenção única, muda a forma de planejar o tratamento.
Para muitos pacientes, a trabeculoplastia seletiva a laser repetida a cada poucos anos permite manter a pressão controlada com menos colírios, menos efeitos colaterais na superfície ocular e menor dependência da adesão diária ao tratamento.
Converse sobre a repetição do laser
Se você já fez SLT e percebeu que a pressão voltou a subir ou se ainda avalia se o laser é uma opção para o seu caso, uma consulta especializada define o melhor caminho.
Agende uma avaliação com o Dr. Márcio Tractenberg, do Portal Glaucoma, e conheça as possibilidades de repetir a SLT.
Oftalmologista Porto Alegre
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